Continuação do capítulo
"Mas que sonho esquisito!". Revi o sonho na minha mente e nada fazia sentido para mim mas sabia que algo de importante transmitia; sonhava com aquele rapaz misterioso e surreal desde que nascera; ele cresceu acompanhando - um pouco mais avançado que eu – o meu ritmo, nos meus sonhos, na minha cabeça.
- Mas afinal quem és tu? O que queres de mim? Porque me persegues continuamente todas as noites? – murmurei para mim mesma.
O que é que eu estava a fazer? “Ele nem era real. Para quê sonhar com coisas impossíveis?”. O sol já mostrava alguns dos seus braços, invadindo com uma luz delicada as frechas da janela a oeste do meu quarto. Esfreguei os olhos com as costas das mãos involuntariamente, em resposta à luz que me era estranha naquele instante. Levantei-me num súbito e olhei de soslaio para o exterior e apercebi-me de que aquele dia iria ser longo… e quente.
Sabia que era demasiado cedo, cedo para os meus pais provavelmente já estarem acordados, mas não aguentava ficar nem um pouco no meu quarto. “Sonho estúpido, parvo e destruidor de noites.” – resmunguei para mim mesma, enquanto descia as escadas em direcção ao andar de baixo, agarrando-me ao corrimão, para que não tombasse a meio do percurso devido ao sono que se apoderava de mim. Arrastei-me até à cozinha, à procura de algum mantimento, quero dizer… do mantimento que era capaz de me pôr com energia tão cedo – cereais com leite.
Dirigi-me ao armário em que estava a caixa dos cereais que ficava pendurado na parede, por cima do balcão de mármore que cobria a maior parte da cozinha; retirei os meus cereais preferidos – “Humm, finalmente muesli” – e em seguida pousei-os na mesa central da cozinha; cambaleei até ao frigorífico, abri a porta com algum esforço, e retirei o pacote de leite que estava numa das secções da mesma. Enquanto a minha refeição aquecia no microondas, encostei-me à mesa e voltei a reflectir sobre a minha ilusão daquela noite. Perguntei-me se ele não seria… talvez… a minha alma gémea e esse seria o motivo para tantos sonhos com o rapaz misterioso ao longo destes anos. “Buh!”, arrepiei-me só com a ideia e ri de mim mesma, por pensar em algo tão banal.
“Tlim” – o som do microondas tornou-se-me tão alto, por estar tão envolvida nos meus pensamentos, que provocou um susto ao meu corpo; saltei em resposta. “Não vou pensar nisto tão cedo, não vale a pena.”, prometi a mim mesma, enquanto retirava a taça com os cereais. Caminhei cautelosamente em direcção à sala e sentei-me no sofá que estava posicionado a norte – não fosse o sono derrubar o meu precioso pequeno-almoço. Acomodei-me, cruzando as pernas à chinês e com a mão que estava livre, procurei o comando da televisão; quando já estava na minha mão, liguei-a e coloquei no canal MTV; “não há nada como música pela manhã” – pensei para mim e sorri com a reflexão que acabara de ter. Tinha acabado de dar uma música que não era das minhas preferidas e desanimada mudei de canal; estava a dar, para minha sorte, um programa de moda, que bastou observar durante uns minutos e já sabia qual era a cerne do programa. Este baseava-se em mudar extremamente uma pessoa – maioritariamente mulheres – normal, para uma deusa. “Não me importava nada”. Não me considerava uma pessoa feia, mas também não era uma rapariga linda… era normal. Gostava de moda, mas nunca seguia a tendência do ano, até porque algumas roupas não me favoreciam. Vestia-me como gostava, queria e sentia-me bem. Às vezes, - e modéstia à parte – vestia-me muito melhor do que aquelas que não perdiam um programa deste género por nada deste mundo. Observei a vítima deste episódio por uns breves momentos, e foi o suficiente para eu querer mudar, novamente, de canal. Dessa vez, decidi fazer zapping; canal um… dois… três… quatro… “Mas não dá nada de jeito?” – resmunguei para mim.
Tudo isto, - deste o momento em que me sentei naquele sofá – foi o suficiente para me esquecer do meu sustento que – ainda – tinha na minha mão esquerda… os cereais.
- Oh, bolas! – murmurei entre dentes, colocando a primeira colherada na minha boca desembaraçadamente. – Buh, que nojo! – resmunguei, enquanto cuspia a colherada de muesli para dentro da taça. “Detesto cereais frios”. Levantei-me abruptamente, dirigi-me à cozinha e pousei a taça dentro do microondas; fechei a pequena porta e rodei o temporizador para um minuto e esperei encostada ao balcão que ficava mesmo ao lado.
Inopinada e misteriosamente surgiu o pensamento que à pouco tinha prometido a mim mesma não voltar a pensar; o terceiro sonho.